Depoimento: Lidando com o autismo

Muitas pessoas me perguntam como é trabalhar com crianças autistas. A resposta: exige muita disponibilidade. Disponibilidade para tentar entender o outro, pra criar uma relação que não existe, para inventar um espaço potencial em conjunto com a criança e sua família. Além disso, trabalhar com crianças com autismo exige, especialmente, muita disponibilidade em conviver com o outro.

O interessante é notar que o outro, seja ele quem for – com diagnóstico ou sem diagnóstico – é diferentes de nós. Daí vem a riqueza de conviver com as pessoas e com os grupos – surgem novas possibilidades para todos!

As mães e pais perguntam: ele vai conseguir? Isso é normal? Isso vai ser sempre assim? Não existem respostas objetivas, claras, certas para essas perguntas. A certeza é que precisamos estar muito disponíveis para as crianças e nunca perder a capacidade de nos surpreender. Às vezes, sem perceber, esperamos aquilo que já conhecemos na criança e em nós mesmos, falta abrir espaço para o novo.

grupo

Lembro sempre às famílias com quem trabalho que diagnósticos são para serem usados especialmente pela equipe de saúde (e mesmo assim, nem para a equipe de saúde só o diagnóstico basta!). O mais importante é estarmos com a criança que existe ali, e não com o autista. A pessoa vem sempre antes do diagnóstico, este não esgota, nem um pouco, as nossas características e singularidades. Além de um diagnóstico de autismo, tem ali uma criança, um sujeito a ser desenvolvido, dentro do ambiente que o cerca. Cabe a nós investir nela. Sem dúvida, isso exige muita disponibilidade.

Aposto, junto com muitas outras pessoas, que todos nós temos as nossas dificuldade e deficiências. Temos que trabalhá-las, mas também contamos com a tolerância dos que estão a nossa volta. Se a sociedade não consegue tolerar as diferenças em uma criança, a deficiência é da sociedade. Não da criança. Deficiência do grupo em suportar aquilo que é diferente e trabalhar para nos aproximarmos. Isso exige disponibilidade. A reflexão que proponho no dia mundial da conscientização do autismo é que possamos estar mais disponíveis para aquilo que é diferente de nós, afinal, somos todos diferentes. E temos muito a aprender uns com os outros.

 

Michelle Gorin é psicologa. Especializanda em clínica com criança e adolescente no Instituto de Psiquiatria da UFRJ e Mestranda em Psicologia Clínica na área de casal, família e criança na PUC Rio.

 

Nota da PetiteBox: Hoje, 2 de abril é o Dia Mundial de Conscientização Sobre o Autismo.

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